Depois de 71 dias de peripécias ao mar, os jangadeiros voltaram ao lar de barco a motor. Final Feliz!

Em 21/02/1968 fiz a mais difícil e perigosa reportagem de minha vida. A jangada “Menino Deus” saiu do Ceará tendo Santos como destino. Embarcamos no Rio de Janeiro, com destino a Santos. No livro
“Saulo Gomes – o grande repórter investigativo”, Adriana Silva relatou as peripécias de 7 dias perdidos ao mar com os 5 jangadeiros que faziam parte do reide. Vale a pena conferir.



……. um pouco da viagem na jangada Menino Deus

Gonçalo Parada, Armando Figueiredo e Saulo Gomes conversavam na redação. Tive uma ideia hoje, depois de saber que o presidente Costa e Silva se negou a receber os jangadeiros que estão participando do décimo reide de jangada. O que é um absurdo, os jangadeiros deram o nome da primeira dama do país, Iolanda Costa e Silva ao evento, exatamente para chamar a atenção do presidente e conseguir uma audiência. – Lá vem você, Saulo, com suas ideias sempre perigosas – rebateu imediatamente Gonçalo Parada, um dos chefes do jornalismos da Tupi. – Tenho até medo de perguntar qual ideia, mas diante da certeza de que se não perguntar vai contar assim mesmo, então, vamos lá, o que está pensando como pauta – completou Armando Figueiredo. – Deixei meu pais foragido porque a ditadura me expulsou; fui preso pelos militares que queriam me silenciar; impediram- me de trabalhar no Rio de Janeiro, onde eu nasci e cresci; eu bem que podia criar uma situação de constrangimento para o presidente Costa e Silva. – Como assim, Saulo. O que está pensando? – E se eu cobrir o trajeto dos jangadeiros do Rio de Janeiro a Santos, dando destaque para a causa desses homens, evidenciando que eles não foram recebidos pelo presidente? – Quer ser preso novamente? – Se eu souber usar as palavras certas, ocultar minhas verdadeiras intenções e focar no reide, talvez consiga criar uma situação de solidariedade e o presidente se renda. Entre argumentos e ponderações, Saulo foi autorizado a fazer a viagem. Aquela era a primeira noite de Saulo Gomes, no mar. Estava começando a ficar muito frio. Sua frágil blusa verde de malha não daria conta. Sua roupa de jangadeiro, cedida por Zé de Lima, muito mais baixo que ele, estava curta, muito curta. Com a canela de fora, o repórter sofria com o vento e o frio. A roupa utilizada pelo jangadeiro é especialmente preparada para aguentar o desafio. Feita de algodão é impermeabilizada de um jeito muito especial. Ela é fervida durante quatro ou cinco dias em castanha de caju e, por isso, apesar de branca, fica marrom. Ao final, o tecido não adere ao corpo quando molhado e deixa o jangadeiro mais protegido. Quando o dia apareceu, todos estavam bem, até Saulo Gomes, apesar do frio passado ao longo da noite. Nenhuma informação do mar ou do céu era suficiente para certificar onde aqueles homens estavam.  A única certeza do Mestre Garoupa era de que eles não estavam onde deveriam. As orientações passadas anteriormente os tinham levado para fora da rota. – E agora, qual critério vamos usar para acertar a rota? – quis saber o repórter, talvez preocupado com sua condição de homem ao mar.           Depois de sete dias, a jangada Menino Deus chegou, às nove horas da noite, em Santos. Eles estavam sendo esperados por dois ou três barcos. Um deles jogou uma corda para rebocar a pequena embarcação até a ponta da praia. Lá, muitas pessoas esperavam por eles, em especial da equipe da Tupi e de veículos de comunicação santistas. Um sargento de bem perto falou. – Tire primeiro o repórter, ele está mal. De fato, Saulo não estava bem, mas resistindo. Os seis tripulantes foram levados para as calçadas e estirados ao chão, ficaram por quarenta minutos enquanto profissionais socorristas faziam exercícios nas pernas e braços deles, propondo reanimar os músculos. O repórter estava desidratado e com quarenta de dois quilos. Cambaleando, todos foram para os carros sendo ovacionados pelos que ali estavam presentes. Para alguns era inacreditável. Em São Paulo, no Sumaré, uma grande surpresa. O programa “Essa é sua Vida”, da Tupi, tinha organizado um encontro entre os jangadeiros e suas famílias. Foi o momento de relatar como tudo tinha acontecido. Em um determinado momento, Mestre Garoupa reconheceu. – Foi a primeira vez que vi um homem do sul conseguir fazer esta travessia. Saulo participou do programa e, na sequência, foi levado pelo seu irmão Silvio, a um hospital para ser devidamente medicado. Ele precisava se recuperar. Ser hidratado e fortalecido. Somente ali o repórter deu conta do estado lamentável dos seus pés. A combinação do sal, água e sol, tinha rachado e machucado muito os dois pés. Depois da saída do mar, eles começaram a inchar e estavam enormes.



Jangada “Menino Deus”


Programa “Esta é a sua Vida” – apresentador Carlos Gaspar – TV Tupi-SP, algumas horas após o desembarque da jangada, em Santos – fev./1968



Os 5 jangadeiros que participaram do reide da jangada “Menino Deus”, nos estúdios da TV Tupi-SP – Programa “Esta é a sua vida”.



Saulo chegou nos estúdios da TV Tupi, desidratado, pesando 42 quilos, com os pés queimados por ficar 7 dias na água e exposto ao sol. Da TV foi direto para o hospital.


Carta do jornalista Edmundo Monteiro, Diretor Presidente dos Diários Associados-SP, endereçada a Saulo, parabenizando-o pela perigosa reportagem.


Edmundo Monteiro – Diretor Presidente dos Diários Associados – SP



Barco “Menino Deus” – ofertado pela Metalúrgica Vigorelli, trocado pela jangada “Menino Deus”, a nosso pedido. A jangada foi doada ao Estado de SP e foi encaminhada ao Museu do Folclore, no Parque do Ibirapuera-SP.






Manchete do Jornal da Tarde – SP.
Os jangadeiros voltaram para o Ceará com um novo instrumento de trabalho.
Final Feliz!