Em 1986, no Programa Jota Silvestre, na TV Bandeirantes e São Paulo, Saulo apresentou uma série de Erros Judiciários no Brasil. Vale conferir.

Revista “O Cruzeiro” – Saulo Gomes entrevista Antônio Juliano Sobrinho, um dos fundadores do Esquadrão da Morte, em 1965. Ele foi durante muitos anos o terror do submundo de São Paulo. Em certo momento Juliano diz: você que é meu amigo pode me ajudar a tirar da cadeia três “bo­bos”. Acho que me lembro do nome deles: Evandro, Evaristo e Modesto. Os verdadeiros assassinos foram Branco e Paraíba, dois bandi­dos da “pesada”, que depois foram mortos em tiroteio com a polícia, mas nunca foram acusa­dos do crime de Parelheiros.



Dos tempos de desafio ao crime no Esquadrão da Morte aos dias que o separam do fim de tudo, com a vida por um fio num leito de miséria, só restou ao policial valente o abandono, o esquecimento. Mas a consciência não o deixou sozinho e ele atende ao seu impulso: contar toda a verdade. A solidão, os amigos distantes e os grandes bandidos desfilam no último depoimento. A mulher e os filhos como testemunhas.




O MASSACRE DE PARELHEIROS

Inocentes condenados e testemunhas de defesa voltam a lançar luzes em benefício da Justiça sobre o massacre de Parelheiros. Os condenados reafirmam que confessaram o crime brutal sob violências físicas e provas arranjadas. Os verdadeiros criminosos estão identificados e mortos em ação contra a polícia. Agora, só resta reparar o erro judiciário e devolver a paz aos que sofrem a marca de um crime que juram não ter praticado e contra os quais nunca houve provas evidentes. Depoimentos e gravações, testemunhas dispostas a prestar ajuda à Justiça, tudo está ao alcance daqueles a quem cabe restabelecer a verdade, definitivamente, em um dos mais bárbaros crimes registrados na crônica policial: o massacre de uma família inteira.




Diário da Noite – fevereiro de 1960



Três inocentes que cumprem pena: Ernesto Seixas, Evaristo Godoi e Gabriel do Espírito Santo



Ernesto Seixas e Saulo Gomes no Programa Jota Silvestre – TV Bandeirantes-SP



Erro Judiciário de Parelheiros-SP – Programa Jota Silvestre – TV Bandeirantes-SP – 1986



O irmão do policial fez contato com Saulo e pediu para que ele fosse a Serra Azul, no interior do estado, porque Juliano, que agonizava vítima de um câncer no fígado, queria fazer uma confissão somente para ele. O repórter teve problemas para gravar com o ex-policial. A família não queria deixar. Ele realmente estava muito debilitado. Mas a decisão final foi mesmo de Juliano. “Eu preciso falar para ele o que eu sei”, disse com muita dificuldade o homem, àquela altura bastante emocionado pela oportunidade de fazer justiça antes de morrer. Estava evidente que ficaria por ali poucos dias. Por favor, tire da cadeia três inocentes. Quem matou a família Miguel do Prado foi o Branco e o Paraíba. Aquela confissão seria suficiente, mas Saulo conseguiu mais. Ele entrevistou um japonês, dono de uma lavanderia, que afirmou um dia ter recebido um paletó todo manchado de sangue para lavar, de dois homens, chamados Branco e Paraíba, e que um dos bolsos tinha um carne de pagamento da loja Pirani, em nome de Miguel Brás do Prado, o pai da família assassinada. A polícia teria muitos problemas em admitir um erro, o que nunca fez. O que aconteceu na sequência, mesmo que por linhas tortas, resolveu o caso. Os dois homens, Branco e Paraíba, já fichados, com muitos crimes nas costas, foram verdadeiramente caçados. Em uma batida, houve tiroteio e os dois morreram. A justiça soltou os três acusados mesmo sem fazer a revisão do processo. A aparição dos absolvidos no programa do J. Silvestre, ao lado de Saulo Gomes, foi para o repórter o melhor dos prêmios. Todo o material documental, fotográfico e audiovisual produzido por Saulo deu base para as reportagens e matérias impressas na revista O Cruzeiro. J. Silvestre ficou tão impressionado com o primeiro trabalho que passou a dedicar uma hora do seu programa para repercutir a investigação do seu repórter. Aquela pauta durou quase quatro anos. Depois da chacina de Parelheiros, vieram outras reportagens. Saulo realizava-se com aquele trabalho. Era o verdadeiro repórter em ação novamente. O segundo tema foi tão impactante quanto o primeiro. Saulo voltou a um episódio ocorrido em abril de 1964. Pedro Beraldo e seus dois filhos, donos de um sítio na serra de Itatiaia, no estado do Rio de Janeiro, foram acusados de terem matado, durante uma briga, Gumercindo Nunes Siqueira, genro de Beraldo. No mesmo dia da anunciada morte, primeiro de abril, o Brasil era vítima do golpe militar. Políticos oposicionistas estavam na mira da polícia. O advogado e deputado pelo MDB Júlio Ferreira da Silva morava na serra e estava na lista dos situacionistas. Aproveitando aquele episódio, ele foi denunciado como mandante do crime. Os quatro apanharam muito. O deputado foi torturado com a técnica do afogamento. Ele teve um derrame, como consequência, e ficou com sequelas. Os quatro homens estavam cumprindo pena. A polícia concluiu que, depois de morto, Gumercindo tinha sido queimado, por isso a ausência de um corpo naquele caso. Cinzas armazenadas em um balde era a prova definitiva da justiça contra os homens. As investigações do repórter levaram a equipe do programa à cidade de Paraty. Na viagem, um acidente envolvendo os dois carros da emissora e um caminhão deixou oito membros do grupo machucados. Saulo quebrou o pé e um braço. Por dois meses, ele andou de cadeira de rodas. Assim que se restabeleceu, Saulo voltou à cidade histórica para prosseguir a investigação. Em uma pequena chácara, a equipe ficou uns 40 metros de distância e o repórter aproximou-se. Ainda de longe, ele gritou: — Você é o Gumercindo? — Sim. — Qual o seu nome completo. — Gumercindo Nunes Siqueira. — Você é daqui? — Não. Estou morando aqui agora, mas eu era de Itatiaia. — O seu sogro chamava Pedro Beraldo? O homem começou a estranhar todas aquelas perguntas, mas seguiu. — Sim. — Você sabia que ele foi preso, junto com os dois filhos e o advogado Júlio Ferreira da Silva, acusados de terem te matado? — Eu sabia. — Se sabia, por que não se apresentou? — Porque eu tinha ódio deles e queria que eles ficassem na cadeia. As vítimas daquele erro foram imediatamente absolvidas e o Estado pagou a indenização devida ao pai, aos filhos e ao advogado. Por quatro anos, Saulo seguiu com as reportagens. Foram nove casos envolvendo 19 pessoas presas injustamente. Dois deles morreram antes de serem soltos. Dezessete pessoas foram absolvidas. Alguns casos, já prescritos, não consideraram o pedido de prisão dos verdadeiros culpados. J. Silvestre ficou tão impressionado com o primeiro trabalho que passou a dedicar uma horado seu programa para repercutir a investigação do seu repórter. Saulo realizava-se com aquele trabalho. Era o verdadeiro repórter em ação novamente.

Pag. 322 do livro:

“Saulo Gomes – o grande Repórter Investigativo” – de Adriana Silva.